Livre de objetos e pessoas

O ano mal começou e já tenho repertório pra um livro. Como falamos lá em casa, nossa vida daria uma série, um reality show.


No fim de janeiro eu mudei de casa. Lidar com tudo que envolve uma mudança não é uma das coisas mais fáceis. Carreto, dinheiro, caixas, novo aluguel, novas contas, nova rotina, caixas, adaptações culinárias, entender como funciona a casa (que eu já frequentava mas morar é diferente), mais caixas. 

Antes mesmo do carnaval eu já tava vivendo muitas emoções. Novos amores partiram e chegaram. Voltei a beber (já mais ou menos parei), dancei funk putaria, beijei geral, me apaixonei... foi muito intenso.

Decidi que era hora de adotar um gato. Conversei em casa, cada dia era uma justificativa diferente, (melhor adaptar a casa, melhor esperar a inspeção, melhor prever os gastos antes), melhor melhor melhor. E toda hora apareciam gatinhos pra adoção, fotos eram compartilhadas, eu chorava, pedia por favor. E assim foi durante semanas.

Até que Brisa apareceu. E a gente teve uma conversa, e enfim o bonde do Bixiga virou mãe. Gastei horrores pra ter tudo pronto pra receber a gatinha. Senti que enfim eu encontrei a gatinha certa, na hora exata. 

Então recebemos uma carta. O proprietário pediu o apartamento e deu um prazo de 30 dias pra entregá-lo "livre de objetos e pessoas". Só pensei na Brisa. Acabei de adotá-la e quero dar um lar seguro e aconchegante pra ela. Pensei em tudo, em não encontrar lugar pra seis pessoas, em não encontrar lugar que aceite gato, em me separar deles, não ter mais eles pra cuidarem da Brisa, pra cuidarmos um do outro.

Eu vivo em um meio de pessoas que tem histórias muito pesadas de preconceito, racismo, preterimento, violências, e nos encontramos em ambientes de desconstrução e lutas constantes contra esse sistema que tá reprimindo todo mundo. É importante pra mim estar perto dos meus amigos, onde me aceitam e não julgam. Sei que tenho todos os privilégios de mulher branca, mas ainda assim mulher, gorda, bissexual, que não performa feminilidade 100%, que se impõe em situações que antes se calava, que não vive uma vida padrão e normativa, que tem plena consciência disso, que escolheu ir na contra mão da sociedade e é feliz assim. Mas nenhum dia é fácil.

Em casa somos em 6 pessoas, sendo negros, gays, bissexuais, gordo, drag, mulher trans, nordestinos, pobres, homens cis que quebram padrões de gênero, mulher cis que quebra padrão de gênero. As histórias de repressão são diárias. É foda ser mulher neste mundo, é foda ser preto, é foda ser gordo, é foda ser mulher trans negra, é foda ser pobre. Isto é parte do contexto que nos une. 

E então acabou? "então a série termina assim né, com as Chiquititas se separando?".

"livre de objetos e pessoas"

Em meio a isso tudo eu tava lidando com problemas de relacionamento, com paranoias internas, minha saúde mental (e de todo mundo na real), já tava bem fragilizada. 

Depois de Heliodora eu voltei diferente. Acho que acessei coisas que precisava, mas que mexem com muito mais do que eu poderia lidar no momento. Tive uma recaída, voltei a ser medicada. Parece que esses remédios maquiam nossos sentimentos, me sinto apática, fria, sem capacidade de sentir adequadamente.

Como podem permitir que a gente tome isso e tá tudo bem?



As emoções de todos estavam exaltadas, alguns apartamentos que conseguíamos e iniciamos o processo de contrato deram errado, em meio a isso, discussões, brigas, gente querendo sair, e todos bem fodidos psicologicamente.

Até que enfim encontramos um lugar, aos 45min do 2° tempo, faltando 5 dias pra liberarmos o apê ~livre de objetos e pessoas~ e achando que não íamos dar conta de uma mudança de 6 pessoas.

Então parece que a série foi renovada pra segunda temporada. Não sem antes muitos sustos, lágrimas, planos Bs Cs e Ds, desespero e falta de esperanças. Já estamos devidamente instalados no novo apto, que é grande o suficiente pra todo mundo ter seu espaço e privacidade. Que tem uma sala enorme com janelão pra gente reunir os amigos numa quarta-feira, que tem banheira que estamos planejando estrear todos juntos e uma cozinha de patrícia com uma bancada que dá pra cozinhar os 6 ao mesmo tempo, lado a lado (Pedro está apaixonado por esta possibilidade).

Eu sei que este post foi pesado. O começo do ano inteiro foi, mas não me arrependo de ter escrito ele. Eu escrevi pra mim, em primeiro lugar, foi bom ler depois de um tempo e conseguir apontar o que precisava corrigir (na vida, no caso). Mas informo que Brisa já está vacinada e bem adaptada no novo lar. Já domina todos os espaços. Vou castrá-la esta semana. Ela é a gatinha mais mimada que você vai ter notícia. Eu garanto pra ela uma vida de gatinho plena e feliz até seu último suspiro.

Esta responsabilidade me equilibrou. Ter gato pra cuidar equilibrou todo mundo. Morar num prédio de patrícia nos colocou um freio necessário na vida loka que a gente tava vivendo. Aqui tem portaria com regras chatas de famílias tradicionais padrão e a gente precisa segui-las (a vida em sociedade nunca me pareceu tão chata). Ter saído do centro tirou nossa casa da rota de afters de festas e visitas quase todos os dias e isso nos mantém mais tranquilos e saudáveis.

Passei uma semana no Rio de Janeiro, por um ato de generosidade de um amigo carioca que tem apto lá e se dispôs a ir comigo e passear bastante (mesmo ele conhecendo e já ter visitado tudo centenas de vezes). Foi uma pausa que me fez muito bem, respirar um ar novo fora dessa cidade.

São Paulo is killing me. As vezes.

Hoje saí do hospital depois de 3 dias de internação por pneumonia. Fui pesquisar a psicossomática da pneumonia e: "cansaço da vida, irritação por ter se doado muito sem haver troca". Eu não sei se vocês acreditam nisso mas no que se refere a mim, eu vejo um ponto de partida aqui.

As coisas estão melhorando.

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