Mais uma dose de lítio

É noite do dia 13 de abril e eu estou sentada na cama escrevendo este texto, enquanto fumo um baseado e bebo um vinho de R$ 8,76. Já neguei convite pra 2 festas e 1 pizza e estou esperando o boy chegar. São 18h do dia 16 quando terminei este texto, ainda sem banho e com o nariz entupido, pensando como minha vida é previsível e toda semana acontece praticamente as mesmas coisas. 



- Fiquei 10 dias internado, já não aguentava mais, ainda não tô 100%. Esse ano tá sendo cabrero, já roubaram minha bike, já perdi a casa que morava, já fui preso, agora quebrei as costelas... Mas vai melhorar. 

Levantamos pra comer alguma coisa, bebi e fumei mais e nos perdemos em diálogos improváveis sobre música, o universo e tudo o mais. Amanhã vou acordar quando todo mundo tiver acabado de deitar, vou observar a Brisa brincar com os dreads dele, limpar a areia dela e tomar mais uma dose de lítio.

- Você não pode se separar deles, imagina se você perder a memória de novo ou tiver qualquer outro surto? Vocês precisam ficar juntos. 
- Esse ano tá sendo insano pra nós dois, né. Ainda bem que não somos um casal oficial. 
- O pior casal de São Paulo.

 A sexta-feira foi longa, comecei a encaixotar minhas coisas pela 2° vez este ano - e ainda estamos em abril. Recebi amigos, o pessoal chegou do rolê de ontem no começo da noite. A noite neguei convites pra mais festas, o vinho de 8 reais rendeu, tô mega chapada e bêbada. 

- oi sumida. 
- oi, eu tava pensando em você. 
Nem era verdade. 

Acendi as luzinhas, coloquei música brasileira, bebi mais, fumei mais e escrevi um pouco. Coloquei algumas camisinhas no criado mudo que fiz com uma caixa de papelão da minha última mudança. 

- A cortina baixou, as luzinhas acenderam e a música aumentou, já sei que a Day tá transando. 
- Ou seja, todo dia. 
- Ah, como se vocês não transassem!

Ele chegou, disse reparou que o meu olho tá vermelho, eu disse que to muito chapada. Ele disse que sonha com o dia em que vai me ver sóbria, eu disse que vou melhorar e ri fingindo que tá tudo sob controle.

- Mas como aconteceu? 
- Minha mente falhou, eu não sei bem, já aconteceu antes, talvez sejam os remédios, eu não consegui me lembrar como voltar pra casa. 
- Vamos colocar um chip em você. Em você e no Ciro, risos risos


Sexta a noite eu só queria dormir. Eu preciso dar um tempo, cuidar da minha saúde. Eu acho que posso tudo porque eu sou jovem, eu durmo muito pouco, trabalho pra caralho, é difícil descansar quando toda sua lista de contatos são também seus vizinhos de bairro. Eu tentei reduzir os danos parando de beber, mas tem dias que não aguento a realidade e preciso beber ficar louca de forma rápida e barata. Funciona.

- Desde que você saiu da minha vida tudo virou uma confusão e nem sei viver de outra forma, mas minha saúde - física e mental - já tá cobrando o preço. Eu nunca segui nenhum dos seus conselhos, mas era bom escutar você, a forma como você acreditava que eu tinha jeito, que podia me consertar.Eu nunca entendi como você prometeu amizade num momento em que eu precisava demais e depois apenas se foi.

Acordei ao lado de alguém que não queria. Sai pra almoçar com amigos e depois fomos pra roda de sample na Pompéia. Rolê de rua em bairro nobre sempre dá polícia, escondam bem os seus B.Os. Dá aqui, deixa eu colocar no meu sutiã, ninguém vai revistar meu sutiã. Aquele boy chegou no mesmo metrô que meus amigos, finjo que não o vi, vamos rápido, acho que ele não me viu, viu? 

Prometi ficar tranquila. Tomei aquela bala nova que tá rolando nas festas, 2cb. Que loucura cara! O que tá acontecendo? A gente não consegue parar de dar risada! Acabou a festa, paramos em um barzinho padrão na Pompéia. Olha só, a gente tá num barzinho padrão na Pompéia! Padrãozinho, golpista! Hahahaahah eu tô tranquila migo, tô de boas, hoje não vou dar vexame (enquanto rebolo até o chão num barzinho padrão na Pompéia).

Fomos parar no Lourdes, um inferninho alternativo na Consolação. Várias festas que frequentamos rola lá há algum tempo, várias histórias. Um amigo encontrou um antigo crush que tava gravando um filme lá. Eu tô sempre bem loka e tudo parece incrível demais ou realmente tudo de incrível demais acontece comigo? Você encontra ex crush com uma vida interessante enquanto eu fujo de crush viciado em pó. Cada um tem o que merece. 

- Foi no carnaval, não foi? 
- Eu não sabia que vocês moravam juntos. 
- Você também estuda na FAU? 
- Eu só vou porque preciso do dinheiro. Preciso de remédios, preciso de padê, Day me dá um lítio? 

Vamos pra casa, decidimos comprar comida no Estadão. Desvio da Roosevelt com todas as minhas forças. Eu tenho preguiça daquelas pessoas clichês, com suas roupas de brechó, artistas de teatro, cabelos coloridos, gente de humanas tocando algum instrumento que eu não tenho interesse, baseados rolando e eu percebendo o quanto eu me encaixo naqueles estereótipos. 

Saímos de casa, peço pro boy me esperar no Estadão -  "Deixei minhas coisas na sua casa, a porta tava aberta, a Brisa tava dormindo na sua cama". De lá, meus amigos arrumaram outro lugar pra ir, casa de amigo de amigo, qual a porcentagem de héteros nesse rolê? Eu tô de boa de héteros por hoje, vou pra casa com o meu. 

Domingo eu acordo sem entender nada. Abro a porta dos 3 quartos silenciosamente pra conferir todo mundo (miga eu tô tão louca, vem me conferir). Valen não volta pra casa desde quinta-feira, mando uma mensagem. São nesses dias em que a casa fica absolutamente silenciosa que eu consigo escutar minha mente, mas geralmente não é bom. 

"Você muda de personalidade não é? você me lembra a Nina do Cisne Negro".
E nunca mais me procurou. É obvio, eu fiz o cara dirigir até a minha casa as onze da noite, pra mandar ele ir embora as 2am sem nem ter dado um beijo! Vira e mexe eu me lembro da voz dele falando isso pra mim. Será que as pessoas sabem o impacto que causam nas outras?

"Mas a Nina não era esquizofrênica?"

Acabo de me lembrar que preciso me recompor de toda a loucura desses últimos 3 dias. Amanhã eu trabalho e o aluguel está atrasado. Nosso último aluguel, álias. E ainda tem mais essa, lidar com mais uma procura por apartamento, carreto, caixas, mudanças, sem dinheiro pra vacinar a gatinha. Não tem como fingir que tá tudo bem. Mesmo com uma dose maior de lítio. 

- Pra que serve esse? 
- O lítio é um estabilizador de humor, como dizia Bethania, é melhor ser feliz do que ser triste, né. 
- Kurt Cobain usava isso quando se matou. 
- Se remédios funcionassem, não existiriam suicídios entre pacientes psiquiátricos. Mas eu ainda tô aqui, não estou?

Pelo menos ainda durmo sem remédios. Quer dizer, eu praticamente só escolheria dormir na minha vida, sono é o que não me falta e mesmo assim sou a que menos dorme. Eu queria uma rotina flexível agora, resolver minhas merdas, ver minha futura casa não apenas por fotos, ir às consultas médicas, dormir bem. 

- Não deu certo de novo? 
- Pois é, o cara vai alugar o apê pra tia dele. 
- Quando foi que nossa vida se tornou este sitcom?
- Vai melhorar Day. Você precisa cuidar da sua cabeça e tudo vai ficar bem. 
- Mas toda vez que você vai embora eu penso que talvez não te veja mais. 
- A gente precisa se esforçar pra se manter vivo e isso não é estranho? 
- Eu acreditava que tudo ia ficar bem quando só eu chorava, mas agora você também chora. 
- Eu tô realmente muito perdido.

Amanhã é segunda-feira e a gente vai cuidar das responsabilidades. Contas, novo apê, trabalho. E tem mais um feriado na sexta, mais uma vez o ciclo vai se repetir, festas, casa cheia, eu prometendo nunca mais beber, percebendo as 5am do sábado o quão cansada eu tô da minha vida medíocre e clichê, só pra depois olhar em volta pra cada rosto familiar e perceber o quanto eu amo e sou amada, apesar de tudo. Sigamos.

2 comentários:

  1. uma palavra. uma expressão:
    C A R A L H O !

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  2. Que louco, não? Mesmo com tantas diferenças, as nossas vidas acabam caindo no mesmo clichê da vida de adulto, essa vida cheia de dificuldade, de problema, em que a gente só queria estar fazendo o que gosta ao lado de quem amamos e que isso bastasse.

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